segunda-feira, 17 de fevereiro de 2025
Mário Soares
O caminho faz-se caminhando. Nunca simpatizei verdadeiramente com este político português que algumas pessoas apelidavam carinhosamente de« Bochechas». Secretário- geral do Partido Socialista, mais tarde primeiro-ministro e depois Presidente da República. Um político ambicioso e que soube de uma forma ardilosa, atingir com sucesso os seus objectivos, aliando-se políticamente a adversários pouco recomendaveis. A uma determinada altura do seu percurso, patrocinou a mudança do símbolo político do seu partido, substituindo o punho erguido que poderia ser encarado como algo de muito revolucionário, por uma rosa, um símbolo mais equilibrado que contrariava a esquerda revolucionáris e de inspiração marxista.
esta operação de camuflagem foi apelidada de colocação do « socialismo na gaveta». E nofundo, foi algo de coerente com a sua actuaçâo política, como primeiro-ministro.Levou o país à falência, obrigando á primeira visita do FMI a Portugal, obrigando os portugueses a « apertarem o cinto», enquanto apelava ao regresso dos grandes capitalistas ao país, mediante oferta de chorudas indeminizaç~^oes e tomadas de posse dos seus activos perdidos com nacionalizaçôes efectuadas após o 25 de Abril de 1974.
No entanto, nos seus últimos anos de vida, voltou a começar a falar em socialismo, em consciência social relativamente aos pobres e também em ecologia e defesa do planeta. Nestes programas televisivos gravados no ano de 2008 e conduzidos pela jornalista Clara Ferreira Alves, pude constatar a cultura e a inteligência do político Mario Soares, em cenários escolhidos que reflectiam o percurso do mesmo e os interesses deste, em várias actividades, desde a cultura, passandoi por actividades económicas e sociais. Mário Soares, foi acima de tudo um « bon vivant» e um excelente contador de histórias».
A jornalista evidenciava uma postura reverencial em relação ao político. Em alguns momentos, parecia «quase beber as palavras do pai da democracia, com alguns teimosamente o tentam apelidar». Uma verdadeira subversâo da história porque a democracia nâo têm pais.Os verdadeiros pais da democracia em Portugal, foram os portugueses e os militares de Abril que a consolidaram, após a revoluçâo dos cravos. Os diferentes agentes políticos tiveram o seu papel na consolidaçâo da democracia. Mário Soares teve o seu papel. Mas nâo foi um papel predominante, em relaçâo a outros políticos no pós 25 de Abril. Álvaro Cunhal, o tal adversario que consideraram o derrotado no 25 de Novembro de 1975, juntou milhares de pessoas sem honras de estado, enquanto o de Mário Soares nâo conseguiu juntarnem metade das pessoas presentes no funeral do dirigente comunista.As despedidas fúnebres revelam muito sobre a importãncia das pessoas que partiram na vida das populações. Cunhal manteve-se sempre fiel aos seus ideais, sem jogos políticos de bastidores. E o povo reconheceu-lhe essa qualidade.Soaresfoi aquele político, mestre de alianças e jogos de bastidores que se foi afastando lentamente do povo que dizia defender e representar. Sempre com um excesso de vaidade e arrogãncia e intolerante para os seus adversários.
Neste programa também pude registar algumas contradições do« pai da democracia» e algumas que entram em conflito com o seu suposto lado humanista.Critica a dureza e brutaidade dos regimesnazis e estalinista mas ao dizer que a utilzaçãoda bomba atómica pelos americanos no Japâo, foi necessaria, pois nâo sabia quanto tempo iria durar a resistência dos japoneses, perde a face de homem solidário e humanista. Aceita como justificável um crime de guerra que matou populaçôes inteiras de duas grandes cidades japonesas. Homens, mulheres e crianças inocentes.
Ao assumir essa justificação, dá razâo a um dos ditadores que criticou duramente. Estaline.Que dizia que a morte de uma pessoa era uma tragédia mas que a morte de mihares de pessoas constituia apenas um número estatístico, Será que para Mário Soares, a morte de milhares de pessoas em Hiroshima e Nagasaki, também será apenas um número estatístico. seria essa pergunta que eu faria a este ilustre político, se tivesse tido a oportunidade de lhe colocar essa questão.
Para mim, Mário Soares terá sido um politico de carne e osso, com virtudes e defeitos como outros políticos. Como herói mitológico que alguns lhe querem atribuir será sem dúvida um heroi com pés de barro.
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