sexta-feira, 20 de setembro de 2024

25 DE Abril de 2024 Um dia, após a comemoração dos 50 anos da revoluçõa, saí de casa bem cedo. Não fui trabalhar. Dia de greve na Justiça. As opções dos nossos dirigentes sindicais, por vezes, deixam-me perplexo. Porquê?. Após a primeira reuniâo com o Ministério da Justiça, os nossos dirigentes, ingénuos ou nâo, presumiram que a nova Ministra da Justiça deveria conhecer em profundidade as reivindicações dos oficiais de justiça.Partiram para essa análise, com base no documento eleitoral do principal partido do governo e elaborado pelo actual ministro das finanças que expunha de forma detalhada as propostas para o sector da justiça e que incluiam claro, os oficiais de justiça. Esqueceram-se do principal. Era apenas uma proposta eleitoral. Os nossos políticos quando chegam ao poder sofrem geralmente de um ataque de amnésia. No entanto, neste dia de sol primaveril deu para ler um pouco e meditar sobre a nossa revolução. Li o pefácio de um livro de histórias sobre o pós 25 de abril de 1974 que comprei no dia anterior que Foi um dia de emoções. Aqui, na cidade de Ponta Delgada, estive na Praça Central junto às portas da cidade, onde num palco ali ontado, pude assistir à actuaçâo de vários grupos e músicos a solo. As canções de Abril, voltam sempre ao palco nesta altura do ano. Mas este ano, foi especial. Comemoravam-se 50 anos daquela madrugada histórica que permitiu a restituiçâo da liberdade e democracia a um povo pobre, infeliz e amordaçado. Não foi sem emoçâo que vi os pequenos alunos do Conservatório a cantar a cançõ libertadora de José Afonso. Grândola Vila Morena. Encontrei apenas uma colega de trabalho, no centro da cidade. O sorriso luminoso e descontraído, revelava tudo. O trabalho na justiça, deixara de ser motivador e um dia de greve fazia um serviço de limpeza e purificação da mente. Ao fim do dia, fui ver o filme « Revoluçõa sem sangue». Um filme necessário. Um filme sobre pessoas que tentaram que ficassem esquecidas. Tudo, para construir o mito da revoluçõ sem sangue. Concordo que a ideia de uma revoluçâo florid, sem vítimas poderia levar à continuação de um outro mito sobre o ser português. A ideia mítica de que o povo português é um povo pacífico. O tal povo de « brandos costumes». Parece que o General Spínola nâo queria acabar com a PIDE, nem libertar os presos politicos. Segundo o testemunho de alguns militares do movimento de capitâes e que estiverm próximo dele, naqueles dias de inicio da revolução, apenas queria reestruturar a policia política. Talvez, porque soubesse que a PIDE seria um excelente meio de dominar uma oposiçâo de que nâo gostava, nomeadamente alguns daqueles presos politicos que se encontravam as cadeias. Uma tentativa de ensaio d e uma nova forma de ditadura, em que o poderoso seria o general do monóculo. é possivel ver no filem em imagens da época, a hesitação do general na sua declaração sobre as medidas da Junta de Salvação Nacional. A extinçâo da policia política foi uma medida imediata, apressada pelos acontecimentos trágicos na Rua António Maria Cardoso, em que os pides encurralados, dispararam sobre a multidâo que cercava o edificio, matando 5 pessoas. Spínola queria ser o novo poderoso e quando o nâo conseguiu, fugiu do paíse organizou um movimento no exterior de luta contra o regime. Um dia se farà a história mais real desta revoluçâo. Talvez, daqui a 50 anos quando já não existirem protagonistas e testemunhas dos acontecimentos.No entanto, o número redondo de 50 anos da revoluçâo, associado aos inúmeros perigos e nuvens cinzentas que pairam sobre a nossa jovem democracia, terâo sido o motivo de muitas pessoas terem vindo para a rua, comemorar o aniversário da revoluçâo. Nestas comemorações a que assisti em Ponta Delgada gostei de ver alguns coros infantis da região a interpretar canções de Abril, dos anos 60 e 70. Correponde á passagem de testemunho entre gerações, das ideias e valores da liberdade e democracia, dos mais velhos para os mais novos. No dia seguinte fui à festa da flor na Ribeira Grande, com uma surpresa agradavél. a festa deste ano de 2024 foi associada às comemoraç~^oes do 25 de Abril. Os carros estavam decorados commotivos relacionados com a revoluçâo.em frente ao edificio do municipio, encontravam-se arranjos florais, com imagens de Salgueiro Maia. Das colunas saia o som de uma canção emblemática de José Mario Branco. " A cantiga é uma arma", com uma letra forte que termina com o refrão # que a cantiga é uma arma contra a burguesia". Sorrio ao ouvir aquela cançõa. Não perdeu o seu encanto, associado a um período revolucionário intenso. é verdade que estas canções após 50 anos, tal como de outros autores como Sérgio Godinho,Jose´Afonso e outros são cantadas de uma forma inócua, sem garra e sem a chama de outrora. Mas no entanto, as palavras entoadas, com energia e chama podem voltar a ser "armas poderosas " no cmbate dos povos pela justiça, liberdade e democracia. Porque a musica tem o dom de desperta sonhos e energias que parecem ter adormecido.Enquanto escrevo este pequeno texto, oiço canções emblemáticasd com Grândola, o hino dos mineiros e Clandestino de Manu Chao. No final da festa e já noite dentro, regressei a casa. Passei junto ao mar. Aquela força enorme da natureza que fascina mas também atemoriza. Que sempre me inspirou e acalmou de uma forma fantástica. E regresso sempre ao 25 de Abril de 1974. Nesse dia não tive escola. a tv só passava musicas de orquestras e militares. Restava a rádio, com o mesmo tipo de música e os comunicados do MFA com uma tónica comum. Apelando à populaçõa para nâo sair à rua. Mas o povo fez o contário e saiu à rua, transformando o que poderia ser apenas um golpe militar, numa revoluçâo. A minha mâe estava assustada. Eu, apenas estava curioso. Era apenas um mundo novo que se abria, a partir daquela madrugada maravilhosa. A mais bela das madrugadas

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