sábado, 10 de julho de 2021

 Geografia Pessoal-Aveleira/Penacova


    Após 2 anos em Almada a residir em Almada, regressámos a Coimbra. Comprámos um andar no concelho de Penacova, localidade da Aveleira.

    No alto de uma serra com o mesmo nome, a decisão da compra não foi fácil. Quando fomos ver o terreno, onde ia ser construído o andar apanhámos um nevoeiro bastante grande que não permitia grande visibilidade na estrada. E a estrada, era uma estrada de serra em muito mau estado de conservação, sem faixa separadora e com poucos rails de protecção.

    Mas a simpatia do agente imobiliário , Sr. Cardoso ( a quem tratavam todos de uma forma respeitosa, por Dr. Cardoso) e que nos assegurou ter a informação sobre obras de reparação e alargamento  da estrada para 2 vias, acabou por nos convencer á compra. O preço também era aliciante. A mudança para uma aldeia situada a 12 KM de Coimbra, acabou por ser uma mudança radical, para quem estava habituado a uma vida citadina. Mas nos primeiros anos, procurei conhecer  os lugares envolventes, com destaque para os centros artesanais de produção de farinha e de pão, do sec. XIX e grande parte do século XX.Os moinhos.Alguns desse moinhos de vento ainda estavam bem conservados e eram utilizados pelos seus proprietários para moer alguns cereais.Junto à aldeia, num lugar aprazível havia um moinho de água, com  algumas mesas de piquenique e algumas sombras proporcionadas pelas arvores que ali se encontravam. Um local utilizado pelos habitantes e por alguns visitantes da aldeia.

No fundo, nunca me integrei na aldeia. Eu e a minha família, fazámos a vida de cidade. A Aveleira era um dormitório para nós. Não tinhamos ligações à aldeia, tal como alguns outros moradores do prédio. O predio tinha uma cobertura superior em PVC transparente que dava maior visibilidade á zona interior do prédio mas que após alguns anos se revelou inapropriada para o local, devido ao tempo mais agreste daquela região de serra. Certo dia, falei com o construtor  e ele assegurou-me que era uma estrutura igual á que tinha sido utilizado no Centro Comercial Vasco da Gama, em Lisboa. Apenas lhe lembrei que o clima em Lisboa era mais suave e temperado e sem grandes ventanias. Pouco tempo depois, num daqueles temporais fortes a cobertura rompeu e teve que ser substituido por outra com um material mais resistente.

    Perto da Aveleira, no fundo de um vale verdejante, ficava a sede de freguesia, a vila de Lorvão. Uma vila histórica, junto de um mosteiro com o mesmo nome da vila. Um centro histórico ligado á produção de manuscritos enquanto mosteiro masculino da Ordem dos Beneditinos e mais tarde mosteiro feminino da Ordem de Cister com uma entrada e interior da igreja em estilo barroco e com um fenomenal orgão de tubos. Paralelamente a isso, a tradicional doçaria conventual, feita pelas religiosas como o pastel de Lorvão e as nevadas.

    Qunado fui residir para a Aveleira, no edificio contíguo  à Igreja e ao mosteiro, ainda funcionava o Hospital Psiquiatrico de Lorvão.Os « loucos pacíficos» deambulavam pelas ruas que circundavam o mosteiro e o Hospital Psiquiátrico que funcionava numa das alas do edificio. Estavam completamente integrados na vivência da localidade. Alguns assumiam posturas de « homens profissionais», nomeadamente, dirigindo o trânsitoe o estacionamento dos veículos. Outros pediam dinheiro e cigarros. Um certo dia, fui lá com uma pessoa amiga que se apresentava de uma forma mais simples e que tinha alguns problemas de alcoolismo. Pela sua forma de estar, um dos « loucos pacificos; considerou-o um compincha» e então abordou-o com uma pergunta directa:- Então pá, deixaram-te sair?. O meu amigo ficou um pouco atónito, encolheu os ombros e sorriu.  Anos mais tarde, aquele Hospital foi encerrado e os doentes foram transferidos para outros locais do país. Lorvão ficou mais deserta e mais silenciosa. A vila perdera parte da sua alma. Os « loucos« já  faziam parte do espirito da vila.

    Após  7 anos a residir numa zona de predios da aldeia da Aveleira, voltei a encontrar esse amigo da agência imobiliaria. E falou-me, num projecto de construção numa outra zona da aldeia. Um projecto de condomínio fechado. Como também já estava a ficar um pouco farto de residir no outro prédio e como este projecto englobava uma área maior, com zonas comuns bastante atractivas, aderi ao projecto. Gostei bastante desta nova habitação. Uma garagem interior, uma zona comum de condomínio com piscina, campo ténis, parque infantil e zona de grelhadores. Foi uma lufada de ar fresca e para os meus filhos também foi um tempo de descoberta., coincidindo com a passagem da infãncia à adolescência.     Recordo com alguma ternura e saudade os momentos felizes em volta da piscina com amigos e familiares. Os almoços familiares.Os banhos nocturnos, os jogos de ténis, as caminhadas e os jogos de futebol.

    Em termos pessoais, para ocupar o tempo e também para tentar ajudar e ser útil a comunidade, envolvi-me na politica local do concelho. O Partido Comunista voltou a vir ter comig, através do amigo e camarada Eduardo. Um homem com um amor à freguesia da qual e natural e com uma dinamica estonteante. conseguiu convencer-me a participar em projectos para  a freguesia e para o concelho.

    No entanto, paralelamente a esta dinãmica política, a degradação do meu casamento acabou por conduzir a um desenlace esperado. A separação e o consequente divorcio. Começei a sentir-me um estranho e um naufrago na minha própria casa. Por vezes, caminhava sózinho nos arredores da casa, percorrendo caminhos e bosques. Sózinho sempre.Os habitantes da aldeia olhavam-me sempre como um citadino.Nem o meu envolvimento na politica local, me troxe algum valor acrescentado em termos de amizades.

    Em Lorvão, os militantes e simpatizantes do nosso partido, envolveram-se activamente na criação de um movimento popular para a recuperação das instalações do antigo Hospital Psiquiatrico e para a criação de uma eventual Unidade de Cuidados Continuados. E aí tive alguma intervencão como membro dessa associação e como eleito na Assembleia de Freguesia e era um pouco conhecido pelas pessoas.

    Com um enorme amargo de boca, regressei a Coimbra após a venda da nossa casa. Para viver sózinho.

 


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