sábado, 3 de julho de 2021

 Geografia Pessoal- 1º história. A infancia  e a juventude. Casa Branca


A infância é sempre um tempo bonito. O mundo exterior é uma constante descoberta. Mesmo quando lhes negam o direito a serem crianças, estas descobrem novas formas de sonhar e de brincar.

    Por isso ouvimos pequenas histórias de adultos que falam de brinquedos que construiram e de brincadeiras que inventaram. Eu também consigo recordar algum tipo de brincadeiras que os miudos do meu tempo desenvolviam e que deixaram de ser habituais nos tempos actuais. Penso que nas pequenas aldeias, alguns miudos ainda praticam brincadeiraa ntigas como o jogo do arco, peão e outras relacionadas com animais e natureza. As novas tecnologias, a sociedade de consumo e a globalização tornaram os habitos e costumes das crianças bastante uniformes.

    Mas ainda hoje, quando vou à Casa Branca ou mais precisamente à Portela da Cobiça e do alto daquele monte, contemplo a cidade de Coimbra, lá em baixo.O Estadio de futebol, o bairro Norton de Matos e a Solum, lugares que percorri quando era criança e jovem.

   O Clube recreaativo da Casa Branca era o local de encontro das pessoas do bairro.Os bailes, os jogos tradicionais, algumas modalidades desportivas, num tempo em que a vida nocturna era práticamente inexistente. Os locais de diversão nocturna eram conhecidos por »boites» e por norma eram um pouco «mal afamados». Para além disso, a grande maioria dos jovens não tinham muito dinheiro, para poderem gastar nessses locais.

  Os bailes das colectividades eram locais de convivio importantes. Fazíamos grandes caminhadas para ir a bailes em locais longíquos. Ninguém tinha carro e por vezes havia conflitos entre as pessoas devido a bairrismos exarcebados. As pessoas de outros bairros ou localidades eram «olhados de forma pouco amistosa».

    Recordo um baile no bairro do Tovim, onde um nosso amigo foi agredido e quando regressávamos ao nosso bairro, fomos perseguidos po populares daquele bairro. A Avenida Elisio de Moura que é hoje uma artéria bastante movimentad, ainda estava em construção. Ainda não passavam carros. E recordo que quando já vinhamos a meio da Avenida, começaram a cair pedras de vários tamanhos á nossa volta. Felizmente, não houve ferimentos no nosso grupo.Até chegarmos a casa, já estavamos a arquitectar e planear formas de vingança.Eram tempos de de rivalidades extremas, com alguma boçalidade e selvajaria à mistura.

    Claro que esta minha geografia pessoal, referente a estes tempos, assenta num eixo familiar, Eu, os meus pais e os meus irmãos. Uma familia tradicional, em que a minha mãe trabalhava em casa. a profissão dela, era não remunerada mas a mais importante na familia. Domestica, era a profissão da minha mãe. O centro daquela casa era a minha mãe, com a sua forma de organizar o espaço envolvente, a sua forma de cozinhar e de tratar da roupa e das limpezas e arrumações.

    Quando a minha mãe «partiu», criou-se um vazio naquela casa. Eu e o meu paique nunca nos entendemos muito bem, tivemos que nos adaptar às novas circunstãncias. E aí, a minha percepção da casa, da rua e do bairro alterou-se. Tive necessidade de ter um papel mais activo na organização das tarefas domésticas e procurar ter um entendimento positivo com o meu pai.

    Mas passados muitos anos, aquela zona da cidade onde cresci e me tornei adulto, representa um mito pessoal. Seria ali que gostaria de residir nos meus ultimos anos de vida.Vivenciando novos sentimentos e emoções passadas, olhando em redor para as alteraçoes que o passar do tempo, imprimiral na paisagem urbana.

    E a partir dessas alterações, fecho os olhos e regresso ao tempo passado, procurando encontrar o equilibrio nesta minha viagem pessoal ao passado, partindo de um lugar que marcou profundamente a minha vida.



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