Geografia Pessoal-Urbanização do Gorgulão
Quando me separei da minha mulher, tentei procurar um pequeno apartamento, junto à estação dos comboiose que me permitisse poupar algum dinheiro.
Por isso, aluguei um apartamento T1, bem perto da estação dos comboios. Não precisava de utilizar o automovel com muita regularidade e poupava algum dinheiro. Foram 2 anos e três meses de Urbanização do Gorgulão. O andar era simpatico. Sem varandas mas com muitas janelas. Os andares em redor eram extremamente vistosos com as varandas a acompanhar a estrutura dos edificios. Alguns dos vizinhos dos predios em frente, habitualmente almoçavam na varanda. Alguns até ali deixavam os seus animais de estimação, para poderem circular à vontade.
Para além da proximidade com a estaçãodos comboios, também tinha a proximidade com a Mata do Choupal.Um « pulmão verde da cidade», onde me habituei a ir para carregar as minhas »baterias». Por diversas vezes, a solidão preenchia de forma intensaos meus dias. Descobri uma« forma de tentar fintar a solidão». O trabalho. Tentava permanecer o mais tempo possivel no local de trabalho.
Quando chegava a casa e ainda era de dia, sentia-me um pouco angustiado e « perdido». Então, calçava as minhas sapatilhas, vestia uns calções, uma tshirt e um fato de treino se estivesse mais frio e lá ia fazer as minhas caminhadas.Estas caminhadas passaram a ser o meu «anti-stress».
Quando caia a noite, aceitava bem a solidão. A televisão, o computadore alguns livros preenchiam as minhas noites solitárias. Durante estes 2 anos, tive alguns relacionamentos amorosos mas que não me preencheram por completo. Também nunca soube cortar «as amarras» com a minha ex-mulher.
E depois, as minhas angústias financeiras. Cheguei a ter apenas 50 cêntimos na carteira. Não tinha sequer dinheiro para um café. Era obrigado a uma enorme «ginástica financeira» até ao dia de receber o ordenado.
Num certo domingo, fui com um enorme desalento caminhar para o choupal e passei pela zona do hipódromo.Nem dinheiro tinha para um café. De repente, vejo uma moeda de um euro no chão. Tal como um pobre mendigo dei um grito de alegria. Apanhei a moeda e após a caminhada fui até ao estabelecimento comercial mais perto, para tomar um café. Acho que foi o café mais saboroso de que me recordo.
Ainda em relação ao Gorgulão, cheguei a desenvolver algumas relações de amizade. Com a Sr.ª Ana, proprietaria de um café na Estrada de Eiras e com o Paulo, um rapaz que frequentava assiduamente o referido café ( e que já conhecia da localidade das Torres do Mondego, tendo sido casado com uma colega da minha ex-mulher). Com eles , chegava a manter algumas conversas de ocasião , quando ali me deslocava.
Naquele apartamento, cheguei a ter uma gata e que acabou por morrer, após uma tentativa falhada de esterilização efectuada por um senhor com muita experência nessa actividade mas que delarou que ela se encontravs prenha, tendo-lhe feito um aborto. Quando trouxe a gata para casa, ela durante a noite sentiu-se mal e acabou por morrer.O mais estranho disto tudo é que o animal nunca saiu de casa. Acho que é um misterio digno de Sherlock Kolmes.
Acho que estes 2 anose três meses de Gorgulão que se localizam na zona norte da cidade de Coimbra, foram anos de chumbo. Esta zona da cidade não faz parte da minha memoria geografica afectiva. Onde eu gostava de voltar a residir seria na Casa Branca. E «ouro, sobre azul, seria na antiga casa onde vivi com os meus pais». Mas isso é um sonho impossivel. só ganhando um jogo da sorte é que poderia voltar a residir numa zona extremamente cara da cidade.
Foi um estagio da minha solidão. Parti em Maio de 2021, para os Açores. um novo local de trabalho, um sítio diferente. Aqui a solidão é diferente. Só tenho o telefone ou o email e as redes sociais para contactar com os amigos e familiares. As cartas deixaram de ter uso. Mas não tenho ilusões e sinto-me mais forte. Uma solidão na nossa cidade é muito mais angustiante e triste.