O primeiro mês na ilha verde
Um mês de Açores, ilha de S. Miguel, cidade de Ponta Delgada. Bem, para ser mais rigoroso, terei que dizer 25 dias.
Acho os açorianos hospitaleiros. Um povo simpático e que tenta agradar aos seus visitantes. A pronuncia açoriana da ilha de S.Miguel e que alguns atribuem a povoadores franceses é um pouco estranha.Não é muito agradavel em termos auditivos, ao contrario de outras pronuncias regionais e de outros continentes, variantes da nossa língua materna. O português.
O mar é uma barreira natural. Consigo notar uma consciência colectiva dessa barreira e que conduz a um certo isolamento.Embora, nesta maior ilha do arquipélago o mar não esteja sempre presente e visível. Talvez essa noção de isolamento possa explicar a afirmação da identidade açoriana.Visivel nalgumas habitações, onde a bandeira açoriana se encontra hasteada. Mas a identidade portuguesa também está presente, com salvaguarda da respectiva autonomia regional que também foi uma conquista da revolução de Abril de 74.
Outro pormenor que caracteriza a alma açoriana. A atracção pelo continente americano. Um continente com uma forte componente de emigrantes açorianos, nomeadamente em países como os EUA e Canadá. Quando aqui cheguei, procurei perceber essa « alma açoriana» na literatura de um dos seus maiores escritores Vitorino Nemésio. Mas também num poeta importante da Geração de 70, do século XIX. Antero de Quental. Vitorino Nemésio e Antero de Quental.
Vitorino Nemésio na sua obra magistral retrata a vivência das pessoas nas ilhas do centro açoriano. Faial, Pico e S. Jorge. A presença do mar é constante na literatura e na poesia. A pesca e a religião são fundamentais na vivência açoriana. A importância do Santo Cristo e as festividades e cerimonias religiosas associadas a este culto. A importância dos senhores da terra, face aos humildes açorianos, trabalhadores agricolas, manuais e pescadores. As rivalidades entre as familias mais poderosas das ilhas. o negocio em que a mulher assume o papel de mercadoria de troca. A protagonista, Margarida uma mulher culta e lutadora e com sonhos proprios, acaba por se resignar e asumir o papel de solucão para os problemas da familia. uma sociedade patriarcal, com caracteristicas proprias e que ainda não acompanhava o espirito de renovação da epoca ( inicio do seculo xx), talvez devido ao seu isolamento proprio.
Em Antero de Quental, o mar está presente na sua poesia. A sua morte trágica, revelou uma personalidade sensível que aparece de forma evidente no seu trabalho, em que compara a morte ao mar imenso que rodeia as pessoas. A morte aparece como um espectro e o sofrimento diário é comparado às ondas do mar.
« Em mim, os sofrimentos que não saram paixão, duvida e mal, se desvanecem. As torrentes de dor, que nunca param.Como no mar, em mim desaparecem...............
Assim, a morte diz... E na sua mudez mais retumbante que o clamoroso nmar, mais rutilante. Na sua noite, do que a luz do dia.»
A alma do povo, ambém esta presente nos seus poetas e escritores .
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