terça-feira, 5 de maio de 2020

Baptista Bastos - Onde o meu amigo estava no 25 de Abril

Aquele homem personificava  a cidade de Lisboa. Escritor, jornalista, homem de esquerda, intelectual, boémio e amante da vida. Com o seu eterno pappilon, uma especie de marca registada.
   Li alguns livros dele, mas recentemente voltei a «tropeçar» na Elegia para um Caixão Vazio. Acho que o li pela terceira vez. Escrito na primeira pessoa,  o Bastos é um homem que viveu intensamente o período da ditadura, participando em acções revolucionárias contra o regime. Contemporizando a sua acção  e o seu peso com a geração dos anos 60, com a qual se identifica. Uma geração com símbolos e ritos revolucionarios, nas suas próprias palavras.
    Mas o Bastos, personagem, é alguem  com um pensamento próprio que se identificava com determinados objectivos mas que não os interiorizava totalmente. A organização e objectivos concretos da distribuição de tarefas e tranformação da sociedade não o cativavam totalmente. O Bastos é um intelectual.
    Identifica-se com aquele sonho de transformação da sociedade dos anos 60 e consegue transportá-lo para as novas gerações. Porque vê na juventude um elo de renovação e reconstrução das aspirações e sonhos por uma nova sociedade.
    O Bastos, figura recreada numa personagem do Herman José com uma voz inconfundível e contando sempre episódios pitorescos da sua vida diária, em que uma frase lapidar se impunha no meio da conversa «Onde estava o meu amigo no 25 de Abril? ».
     O 25 de Abril, aquela data simbólica da conquista da  liberdade. Ponto de partida, de esperanças, sonhos e ilusões. Para a geração de 60, que lutou pela liberdade, representa o culminar de uma conquista preciosa e essencial. Liberdade, democracia e fim da guerra colonial.
      E o Baptista Bastos, questionando a todos sobre aquela data de uma forma aparentemente ligeira, mas afirmativa, inserindo imediatamente no espirito dos interlocutores a importância daquela data.
      O Baptista Bastos já partiu deste mundo. Mas no mundo dos espíritos, imagino-o a interrogar Deus. Onde é que o meu amigo estava no 25 de Abril?
 
 

Nenhum comentário:

Postar um comentário