HISTÓRIAS DA MINHA RUA
A rua era o ponto de encontro daquela rapaziada que morava no Bairro da Portela da Cobiça. Um bairro situado longe do centro da cidade, onde se respirava o campo. Oliveiras, canaviais, terrenos agrícolas, mato rasteiro e alguma bicharada.Os nossos jogos eram na rua.O futebol, as corridas de bicicleta, os jogos das caricas e mais tarde o Monopólio.
Uma figura importante e castiça daquela bairro era o Sr. José Almeida, a quem todos chamavam de Ze-Mé. O meu pai que não gostava muito dele chamava-lhe de Zé Merda.Com a distância devida, pelo tempo que passou e agora que sou adulto, reconheço que as nossa tropelias, eram bem atrevidas. Mas era um sinal exterior de um tempo em que não haviam computadores, telemóveis, Play Stations e outros aparelhos electrónicos que individualizavam os garotos e os faziam ficar em casa.
Por isso, na nossa infância quando nos deslocávamos à mercearia do Zé-Mé era apenas para comprar rebuçados, chupa-chupas, ou chocolates. Mas quando podíamos surripiávamos alguma coisa. ele bem que desconfiava mas nunca nos apanhou em flagrante.A Sr.ª Maria, esposa do Zé-Mé era bastante atenciosa. Mas nós meninos irrequietos, aproveitávamos para poder enganar aquela senhora bondosa que quando não tínhamos dinheiro suficiente era a primeira a não nos deixar partir sem levar aquilo que pretendíamos. Guloseimas, muitas guloseimas.
Mais tarde, na adolescência, os hábitos mudaram e os surripiadores passaram a procurar cigarros.Eu era apenas espectador. Acompanhava mas não agia, Bem ao contrário, os meus colegas de rua o Xico , o Bastos e o Correia, faziam a cabeça em água aos pobres merceeiros.
Recordo apenas um pequeno episódio, após o 25 de Abril. Um dia arranquei um cartaz de um partido de quem não gostava, do muro da casa do Zé-Mé. Mas infelizmente, a Sr.ª Maria apercebeu-se e repreendeu-me. lá tive que a ajudar a colar novamente o cartaz, até porque o partido em causa fazia parte da simpatia da Sr.ª Maria.
Quando os encontro actualmente no supermercado, envelhecidos e alquebrados, perco sempre algum tempo a falar com eles.E com eles viajo até ao passado da minha infância.O Zé-Mé que contava histórias «sem pés , nem cabeça » mas com uma duração interminável.Por esse motivo, o meu pai lhe chamava aquele nome feio, porque achava-o um chato. Mas para o fim da vida do meu pai, acabaram por tornar-se amigos. Preenchiam juntos os difíceis momentos de solidão da velhice.
voltei um dia destes à Portela da Cobiça. A entrada da loja está lá. mas encontra-se fechada e já não têm a parte da taverna, com o pipo e o loureiro à porta.mas continuam lá, no seu cantinho, provavelmente recordando outros tempos de comércio e felicidade.

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