domingo, 25 de setembro de 2016

                                             HISTÓRIAS DA MINHA RUA

A rua era o ponto de encontro daquela rapaziada que morava no Bairro da Portela da Cobiça. Um bairro situado longe do centro da cidade, onde se respirava o campo. Oliveiras, canaviais, terrenos agrícolas, mato rasteiro e alguma bicharada.Os nossos jogos eram na rua.O futebol, as corridas de bicicleta, os jogos das caricas e mais tarde o Monopólio.
Uma figura importante e castiça daquela bairro era o Sr. José Almeida, a quem todos chamavam de Ze-Mé. O  meu pai que não gostava muito dele chamava-lhe de Zé Merda.Com a distância devida, pelo tempo que passou e agora que sou adulto, reconheço que as nossa tropelias, eram bem atrevidas. Mas era um  sinal exterior de um tempo em que não haviam computadores, telemóveis, Play Stations e outros aparelhos electrónicos que individualizavam os garotos e os faziam ficar em casa.
  Por isso, na nossa infância quando nos deslocávamos à mercearia do Zé-Mé era apenas para comprar rebuçados, chupa-chupas, ou chocolates. Mas quando podíamos surripiávamos alguma coisa. ele bem que desconfiava mas nunca nos apanhou em flagrante.A Sr.ª Maria, esposa do Zé-Mé era bastante atenciosa. Mas nós meninos irrequietos, aproveitávamos para poder enganar aquela senhora bondosa que quando não tínhamos dinheiro suficiente era a primeira a não nos deixar partir sem levar aquilo que pretendíamos. Guloseimas, muitas guloseimas.
  Mais tarde, na adolescência, os hábitos mudaram e os surripiadores passaram a procurar cigarros.Eu era apenas espectador. Acompanhava mas não agia, Bem ao contrário, os meus colegas de rua o Xico , o Bastos e o Correia, faziam a cabeça em água aos pobres merceeiros.
  Recordo apenas um pequeno episódio, após o 25 de Abril. Um dia arranquei um cartaz de um partido de quem não gostava, do muro da casa do Zé-Mé. Mas infelizmente, a Sr.ª Maria apercebeu-se e repreendeu-me. lá tive que a ajudar a colar novamente o cartaz, até porque o partido em causa fazia parte da simpatia da Sr.ª Maria.
 Quando os encontro actualmente no supermercado, envelhecidos e alquebrados, perco sempre algum tempo a falar com eles.E com eles viajo até ao passado da minha infância.O Zé-Mé que contava histórias «sem pés , nem cabeça » mas com uma duração interminável.Por esse motivo, o meu pai lhe chamava aquele nome feio, porque achava-o um chato. Mas para o fim da vida do meu pai, acabaram por tornar-se amigos. Preenchiam juntos os difíceis momentos de solidão da velhice.
voltei um dia destes à Portela da Cobiça. A entrada da loja está lá. mas encontra-se fechada e já não têm a parte da taverna, com o pipo e o loureiro à porta.mas continuam lá, no seu cantinho, provavelmente recordando outros tempos de comércio e felicidade.





sábado, 10 de setembro de 2016

                                       A Minha Festa do Avante

É uma viagem fabulosa que faço regularmente ao mundo das pessoas que constroem esta festa, ali para os lados da Margem Sul do Rio Tejo. Voluntários com um ideal da construção de um mundo melhor, erguem ali no concelho do Seixal, uma festa que homenageia de uma forma simples mas eficaz a cultura e as tradições do povo português.
Ali estão presentes todas as regiões do país com a sua gastronomia, cultura e tradições. A par das propostas políticas do partido comunista, encontramos espectáculos de musica, teatro, cinema, desporto, exposições e as mais diferentes actividades, comuns numa sociedade moderna ( comercio de livros e discos, artesanato, coleccionismo, etc, etc).
   É um pequeno lugar comum  dizer que em termos politicos, apenas os comunistas e simpatizantes , conseguem construir uma festa como esta em Portugal. Uma festa assente no voluntarismo e na entrega. Acredito neste lugar comum. As pessoas que ali trabalham na implantação da festa e durante a festa são essencialmente voluntários vindos de todo o país. Eu próprio fui um voluntário no pavilhão de Coimbra.
  Encontro ali uma festa de alegria, amizade e solidariedade entre as pessoas. Pessoas que se orgulham do passado daquele partido, da sua resistência e da sua luta anti-fascista. E o entusiasmo transmite-se de geração em geração.
  O fenómeno de loucura colectiva positiva, quando no decurso da festa e no encerramento se ouvem os primeiros acordes da «Carvalhesa». Uma música simbólica do partido e que convida imediatamente as pessoas a saltar e a dançar. Um convite para a festa do ano seguinte. Um hino à vida e à esperança que povoa os ideais, pensamentos e sensações de todas as pessoas, independentemente das suas convicções políticas e religiosas.
 Bem Hajam construtores da Festa do Avante.Um lugar para onde viajarei regularmente com  curiosidade, alegria e acima de tudo vontade de participar e estar presente.