sábado, 9 de agosto de 2014

Meursault- o homem absurdo

A historia de um homem absurdo: Meursault, a personagem criada por Albert Camus, no seu romance o Estrangeiro, fascinou-me desde a primeira leitura. Jovem adulto, a trabalhar longe de casa, a viver nuns contentores pertencentes a empresa para a qual trabalhava, aquela historia de um homem despojado, alheio ao mundo exterior e que colocou a sua própria mãe num asilo, por já não ter nada para falar com ela e que revela uma atitude aparentemente insensível durante o funeral da sua mãe, acabando por ter um fim trágico ao ser condenado a morte, por ter assassinado um homem árabe, numa praia por um motivo fútil, nomeadamente por se ter encadeado com a luz solar, insinuava-se de uma forma estranha na minha vida pessoal. Sentia-me um Meursault, isolado da família e a viver num local estranho, com pessoas estranhas, embora naturalmente simpáticas.
  O trabalho que desempenhava naquele local estranho não era muito pesado. Trabalhava como segurança.E acabei por viver momentos humanos intensos naquela fabrica.Alguns pequeno-trágicos, outros comoventes e por fim alguns engraçados e ate hilariantes. Mas nos momentos de retiro e solidão, a empatia que sentia com Meursault era total. A minha indiferença perante o mundo exterior e perante as pessoas era enorme. Lembro-me que na altura vivia com os meus pais. A casa paterna ficava a uns 50 Km.As minhas folgas eram apenas de um dia, por semana. Não tinha transporte próprio e estava dependente dos transportes públicos que ao fim de semana não existiam. Por isso, ficava por ali.E não me sentia infeliz. Falava com os empregados do restaurante que frequentava, com alguns operários e com os colegas que me subsistiam  nos turnos.Conversas triviais com pessoas simples e sem objectivos definidos mas que me preenchiam por completo.Quando não tinha ninguém com quem conversar, regressava ao meu contentor e folheava as paginas do Estrangeiro. Lia e relia. E sublinhava parágrafos e frases.E sentia-me feliz e em paz com o mundo.Porque, tal como Meursault, passava apenas a ser um elemento natural deste mundo, tal como uma árvore, um rio, ou uma montanha. e  não temia a solidão, a doença e a morte.

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