quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Che Guevara e Jim Morrison

mas que titulo estranho. E estranha esta associação. Mas e uma associação individual que faz parte do meu mundo mental. Não sou um ser dinâmico e extrovertido.Mas tenho uma personalidade inquieta e idealista, fruto de leituras que fiz durante a minha infância e juventude.Associado a isso vi muita televisão. Eu era um rapaz solitário e já na escola em brincadeiras infantis, procurava de uma forma desastrada conduzir pequenas revoltas.Relembro pequenos episódios que não resultaram, por eu não ter um espírito de líder.A minha revolta sempre foi interior.E durante a minha infância e juventude, por vezes explodia de formas menos correctas. Ainda hoje, com 50 anos, mais calmo e maduro, por vezes «expludo« de uma forma irreflectida. Por vezes, sinto-me um autentico vulcão. Mas tenho o meu lado bom e idealista, associado a uma rebeldia constante.Dai a associação entre Che Guevara e Jim Morrison.
  A revolução do 25 de abril de 1974, entrou na minha vida com 11 anos. Um dos meus irmãos mais velhos, naquele período fabuloso do PREC, aproximou-se do Partido Comunista. E começou a levar para casa dos meus pais livros e discos de carácter politico. E lentamente, acabei por absorver alguns ideais comunistas e revolucionários.
Che Guevara, do qual apenas li um pequeno livro biográfico, encantou-me de imediato.O seu percurso de vida. desde a sua viagem pela América Latina, onde despertou a sua sensibilidade para o combate as injustiças do mundo, passando pela sua luta revolucionaria em Cuba, ate a sua morte na Bolívia. Tenho hoje, plena consciência que se criou um mito, com base numa celebre fotografia. A sociedade de consumo actual e o sistema capitalista absorveram este mito. Que aparece em camisolas, bonés, t-shirts, etc, etc. Mas e um mito que desperta a sede de justiça e de luta contra a desigualdade de milhões de pessoas, em todo o mundo. Uma chama imensa que não se apaga e que preenche os corações das pessoas.E um sonho sempre presente, por um mundo melhor.
  Bem diferente, é o mito Jim Morrison. Ainda hoje é idolatrado por milhões de pessoas em todo o mundo. Um musico, um poeta que não calava a sua voz, perante o autoritarismo da sociedade americana.Nas suas canções e poemas, ele falava de uma outra revolução.Da revolução interior em cada pessoa. Uma revolução dos sentidos. E desafiava as autoridades. Os concertos dos Doors eram escandalosos e provocatórios. E Jim era um líder. Um líder de palavras e de canções.Os Doors e Jim Morrison, conduziam-me a um outro lado da revolta.se vivemos num mundo que nos oprime, devemos lutar contra a face mais visível dessa opressão. A autoridade e a policia.A policia limitava-se a serem escravos» nas mãos dos poderosos . Palavras de Jim Morrison.
 Dois mitos, duas faces de uma moeda. Em suma, este mundo e esta sociedade em que vivemos conduz as pessoas a um sentimento de insatisfação e impotência.Dai necessitarmos de mitos. Mitos revolucionários, mitos de rebeldia. Che Guevara e Jim Morrison. E no fundo da estrada e do túnel, o sonho. O tal sonho que comanda a vida, como escreveu o poeta português, António Gedeão.

sábado, 9 de agosto de 2014

Meursault- o homem absurdo

A historia de um homem absurdo: Meursault, a personagem criada por Albert Camus, no seu romance o Estrangeiro, fascinou-me desde a primeira leitura. Jovem adulto, a trabalhar longe de casa, a viver nuns contentores pertencentes a empresa para a qual trabalhava, aquela historia de um homem despojado, alheio ao mundo exterior e que colocou a sua própria mãe num asilo, por já não ter nada para falar com ela e que revela uma atitude aparentemente insensível durante o funeral da sua mãe, acabando por ter um fim trágico ao ser condenado a morte, por ter assassinado um homem árabe, numa praia por um motivo fútil, nomeadamente por se ter encadeado com a luz solar, insinuava-se de uma forma estranha na minha vida pessoal. Sentia-me um Meursault, isolado da família e a viver num local estranho, com pessoas estranhas, embora naturalmente simpáticas.
  O trabalho que desempenhava naquele local estranho não era muito pesado. Trabalhava como segurança.E acabei por viver momentos humanos intensos naquela fabrica.Alguns pequeno-trágicos, outros comoventes e por fim alguns engraçados e ate hilariantes. Mas nos momentos de retiro e solidão, a empatia que sentia com Meursault era total. A minha indiferença perante o mundo exterior e perante as pessoas era enorme. Lembro-me que na altura vivia com os meus pais. A casa paterna ficava a uns 50 Km.As minhas folgas eram apenas de um dia, por semana. Não tinha transporte próprio e estava dependente dos transportes públicos que ao fim de semana não existiam. Por isso, ficava por ali.E não me sentia infeliz. Falava com os empregados do restaurante que frequentava, com alguns operários e com os colegas que me subsistiam  nos turnos.Conversas triviais com pessoas simples e sem objectivos definidos mas que me preenchiam por completo.Quando não tinha ninguém com quem conversar, regressava ao meu contentor e folheava as paginas do Estrangeiro. Lia e relia. E sublinhava parágrafos e frases.E sentia-me feliz e em paz com o mundo.Porque, tal como Meursault, passava apenas a ser um elemento natural deste mundo, tal como uma árvore, um rio, ou uma montanha. e  não temia a solidão, a doença e a morte.